O que esperar da primeira fornada de livros didáticos sob Bolsonaro?

As primeiras edições feitas sob o crivo do governo inspiram temores e autocensura

O ano era 1964. Chegava às salas de aula um livro que marcaria um triste capítulo da história da educação brasileira. Escrito por um sociólogo militar com a ajuda de jovens historiadores, História Nova do Brasil não tinha nada de subversivo.

Amparava-se no marxismo, porém, para explicar a história econômica do  País. Bastou para que os generais golpistas sumissem com os exemplares distribuídos. E para que seu autor, Nelson Werneck, perdesse os direitos políticos pelos próximos dez anos. Interrompia-se ali o processo de modernização que floresceu nos anos JK.

Não foi  necessário, porém, invadir bibliotecas e repartições. “As editoras entenderam o recado e passaram a se autocensurar”, pontua a historiadora Circe Bittencourt, organizadora do Banco de Dados de Livros Escolares Brasileiros, a maior biblioteca desse gênero do País.

Política de Estado. A distribuição dos livros gratuitos só começou a funcionar como deveria no fim dos anos 90. Foto: Nina Lima/Agência O Globo

POLÍTICA DE ESTADO. A DISTRIBUIÇÃO DOS LIVROS GRATUITOS SÓ COMEÇOU A FUNCIONAR COMO DEVERIA NO FIM DOS ANOS 90. FOTO: NINA LIMA/AGÊNCIA O GLOBO

Quase seis décadas depois, a história parece se repetir. Chegarão nas escolas em 2021 os primeiros livros produzidos sob a batuta do governo Bolsonaro. Apenas para o Ensino Médio, por enquanto. E já não mais definidos por disciplinas, mas pela proposta de ensino integrado definida pela controversa reforma do governo Temer.

A seleção do material abrirá um novo terreno de batalha ideológica na educação, talvez o setor mais aviltado pelos novos donos do  poder. Em conversa com jornalistas no último dia 3, o presidente antecipou seus planos. Sem que qualquer repórter pergunta se, alardeou a notícia. Chamou os livros didáticos brasileiros de “lixo”. Também prometeu “suavizar” o “amontoado de muita coisa escrita” que, segundo ele, caracterizou a produção dessas obras até aqui.

A declaração causou mais pavor entre educadores do que a  ameaça de guerra com o Irã. E com razão. Bolsonaro não mentia quando disse que as obras perderão tamanho. Os livros da nova fornada deverão ter entre 160 e 320 páginas, conforme as regras do edital do Programa Nacional do Livro Didático, divulgado (com atraso) no mês passado. Antes, podiam ter até 1.000 páginas.

O material que serve de apoio aos professores também afinou. Perde-se assim muito da base científica e pedagógica para preparar as aulas.  Ganha-se em troca o apoio de vídeos de até 10 minutos com linguagem “atrativa” e de “fácil entendimento”, como os do YouTube. Uma pitada de cada conteúdo passa a ser suficiente.

Fonte: Carta Capital

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