O Nome da Rosa

Olá, literários!

Hoje vamos falar do magnífico livro “O Nome da Rosa” por Umberto Eco, um romance histórico, aparentemente e intencionalmente, uma história de investigação. É um livro escrito por um erudito (alguém que possui uma cultura vasta, sobre um determinado assunto, sobre a história do mundo, das artes, da música, sabe de tudo um pouco ou muito).

A trama do livro é simples, e, ainda assim, satisfatória, esta se passa nos primórdios do século XIV e conta a história de um ex-inquisidor inglês, William de Baskerville, este chega a famosa abadia na Itália, acompanhado por um noviço, Adso de Melk, para investigar uma morte suspeita de um dos monges. William de Baskerville é um gênio, investigador arguto e extremamente observador.

Assim, por sete dias, vários assassinatos acontecem, e o investigador William precisa correr contra o tempo para descobrir quem é o assassino. Neste mistério de assassinatos, investigador e seu noviço precisam vasculhar uma biblioteca homérica, uma das maiores do mundo, construída há séculos e repleta de segredos, sendo esta construída em forma de um labirinto e só o bibliotecário tem acesso a ela. Através dele os monges chegam a alguns livros, pois nem todos estão disponíveis para consulta.

O problema é que todos os indícios apontam para a biblioteca, porém, por conta da proibição de acesso a esta, a investigação de William e seu noviço torna-se mais complicado, uma vez que o abade proibiu o acesso deles à biblioteca.

O interessante é que Adso de Melk nos conta a história quase como se estivesse se confessando. Muitos anos depois do ocorrido, agora um monge maduro e experimentado na fé, ele resolve relatar os fatos que vivenciou ao lado do seu mestre, fatos que nunca se apagaram da sua memória, de tão marcantes que foram.

Sua narrativa é extremamente humilde, e acredito que Umberto Eco imita a escrita dos monges piedosos daquele tempo. Ele não recorreu à saída mais utilizada atualmente de retratar um monge hipócrita e repleto de defeitos, sem o menor relance de qualquer qualidade que seja e saliento que, como em qualquer tempo, a Igreja do século XIV estava povoada de numerosos exemplos de uns e de outros, tanto dos bons, como dos maus, o que é normal na história da igreja.

De toda feita, Adso olha para seu passado, avalia com discernimento os erros cometidos por ele mesmo, quando jovem (e foram muitos), os erros do seu mestre, mas mantém sempre o olhar para Deus, centro e razão da sua vida e como poderia ser diferente, se no século XIV o papel da religião era de tal importância que dele não se podia escapar?

Assim, os livros, as pinturas, a música, o trabalho, os sonhos, os estudos, enfim, tudo se fazia tendo como perspectiva Deus, seja com reta intenção, seja por motivos mesquinhos. Adso é, portanto, a primeira grande vitória de Eco no seu livro de estreia, um dos motivos para seu livro ser tão bom e um dos principais responsáveis por situar o leitor em sua época, e ver aquele mundo sem anacronismo, mas com os olhos de um monge da Idade Média. Como dizer algo diferente após ler esta reflexão de Adso?

O livro é dividido por grandes seções, que representam cada dia na abadia. As seções, no que lhe concerne, são divididas pelos momentos de oração na liturgia das horas: laudas, terça, sexta, nona, vésperas e completas. Naquela época, considerando que não havia relógios, esta era a maneira de marcar a rotina, algo muito importante dos mosteiros e das abadias.

O autor não vai direto para um assassinato ou para uma cena com ação. Ele e Adso passam pela Igreja e Adso descreve, com profusão de detalhes, o que vê, encanta-se com os símbolos, com as esculturas; vão ao scritorium,  lugar onde os monges copistas fazem seu trabalho, copiam volumes para enviar a outras bibliotecas, copiam volumes emprestados de outras bibliotecas, restaurar e fazer cópias de livros mais velhos, ler, copiar, ler, copiar…

Neste lugar, Adso não perde a oportunidade de descrever como cada monge realiza seu trabalho, de que horas até que horas, por onde saem, para aonde vão, de onde vieram, etc. Assim, Eco vai forçando uma imersão no século XIV, para que quando as motivações aparecerem, não nos surpreendamos negativamente, julgando que o livro não soou convincente.

O ritmo lento, entretanto, é uma impressão falsa, como já falei. Na verdade, é um gigante que começa a correr, e quando ele finalmente está correndo, o ritmo é alucinante e eu mesmo não conseguia parar de ler até chegar à última página.

Outro fato interessante é que William de Baskerville não foi até a abadia para investigar o assassinato ou suicídio do monge. Ele foi para um encontro importantíssimo na história da Igreja. Naquela época, estava em discussão o caráter da pobreza dos franciscanos e de outras ordens inspiradas no exemplo do Santo de Assis.

Seria lícito aos franciscanos possuírem bens? E não possuí-los? Mais do que uma simples celeuma envolvendo o direito de haver ordens puramente mendicantes como, aliás, viveu o próprio Francisco, estavam em jogo heresias mais sérias e, principalmente, interesses políticos que envolviam desde o papa até imperadores.

Não custa lembrar que na época em que se passa a história, ano de 1327 a Igreja vivia a crise de Avignon, quando, por pressão da realeza francesa, o papa foi obrigado a residir em Avignon, no sul da França. Esta parte política é explorada com extrema habilidade pelo autor.

Você lê pensando: aonde isso vai chegar? Mas à medida que a história avança, pode ver que não havia nada de subtrama. Pelo contrário, os crimes ocorridos na abadia acabam dialogando com as heresias que então se discutia no enredo.

O Nome da Rosa, seja pela presença terrível da biblioteca da abadia (as bibliotecas sempre foram algo muito fascinante para o escritor argentino), seja pela imagem do labirinto, também muito presente na literatura de Borges, seja também por um dos monges, um velho cego e muito sábio chamado Jorge. O autor era apaixonado pelos livros. Eles são a alma de “O Nome da Rosa”. Os livros e o que neles está escrito, o livro e o que eles escondem ou mostram, os livros e suas histórias e assim segue a trama.

O Nome da Rosa é um livro de muitas camadas. Você pode ler como um livro de detetives e terminar satisfeito. Pode ler como um romance histórico e também terminará feliz. Pode ler como um estudante da religião, como um amante dos livros, como um místico… Enfim, é um livro que permite múltiplas abordagens, um livro que você termina sabendo que há muito ali a ser descoberto, um dos requisitos de um clássico.

O Nome da Rosa impressiona, emociona e perpetua na nossa memória. Um livro para não ser apenas lido, mas degustado. Quanto ao filme, excelente, mas nesse caso, o livro levou a melhor.

Altamente recomendável!

Boa leitura e até o próximo post!

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