“O importante é que o livro permanece em nós”

Para Joselia Aguiar, diretora da Biblioteca Mário de Andrade, os livros estimulam a cidadania

Joselia Aguiar é uma “soteropaulistana” convicta. Nascida em Salvador em 1978, há vinte anos ela adotou São Paulo como sua cidade, mas nem por isso deixa de apresentar um leve sotaque, principalmente quando se empolga, mesmo que a fala permaneça suave. E o que empolga Joselia? Livros, muitos livros.

Dona de uma biblioteca pessoal de cerca de 3 mil volumes, a jornalista formada pela Faculdade de Comunicação (Facom) da Universidade Federal da Bahia e mestre e doutoranda em História pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP passa seus dias rodeada por mais volumes ainda. Na verdade, cerca de 3,3 milhões de títulos cobrindo todas as áreas do conhecimento humano, entre incunábulos, gravuras, manuscritos e obras raras.

Explica-se: depois de ser curadora da prestigiada Flip por dois anos, desde fevereiro ela é a diretora da Biblioteca Mário de Andrade, a mais importante biblioteca pública do Estado. Mas a relação de Joselia com os livros é uma via com várias faixas, além daquela na qual ela trafega atualmente na biblioteca.

A primeira, mais direta, é a de leitora. “Sempre fui rata de biblioteca, desde a adolescência”, lembra Joselia. Estudei em um colégio religioso em Salvador chamado Santíssimo Sacramento. E muitos anos depois de sair de lá, quando ia visitar a escola, a freira que cuidava da biblioteca dizia que a minha ficha continuava sendo a mais longa, de tantos livros que havia lido. Ela comemorava isso”, diverte-se. Entre esses livros estavam daquele autor que ela mais tarde teria como objeto de estudo: Jorge Amado.

“Foi ali que comecei a ler Jorge Amado, por exemplo. Muitos livros dele eu li nessa biblioteca. Uma coisa engraçada é que uma outra freira, quando me viu certa vez no corredor com um livro dele, falou: “Você está lendo Jorge Amado? Mas ele é tão imoral…” A reprimenda religiosa não afetou a futura biógrafa do pai de Gabriela, Dona Flor e Tieta, e aí está uma outra faixa na qual Joselia Aguiar se movimenta bem: a de autora.

Seu aplaudido livro Jorge Amado: Uma Biografia (Ed. Todavia), que já teve uma reimpressão e parte para a segunda edição, é fruto de muita pesquisa e interesse. “Queria fazer um trabalho quase científico, que mostrasse o lugar literário e político de Jorge no Brasil e no mundo, com um olhar de historiadora”. Conseguiu (leia a crítica do livro aqui).

Uma outra coisa que diverte Joselia sobre Jorge Amado é mais uma curiosidade, mas que ela não deixou de registrar. Trata-se de seu único encontro com o autor. “Muitos anos depois, o que me impressiona não é tanto o fato de Jorge Amado ter inesperadamente me dado esse livro no nosso único encontro, e sim o de ter escrito meu nome sem acento na dedicatória (acertou sem precisar me perguntar, e o mais natural seria o acento)”, lembrou ela em uma rede social a respeito do autógrafo dado em Bahia de Todos os Santos.” “Para Joselia, com um beijo”, escreveu Jorge.

Uma outra faceta de Joselia Aguiar é a razão de ter recebido o Jornal da USPem sua ampla e despojada sala na Biblioteca Mário de Andrade: o livro como objeto, sua importância histórica, cultural e social. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Biografia de Jorge Amado reconstitui saga da literatura brasileira (Resenha do livro Jorge Amado: Uma Biografia, de Joselia Aguiar)

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