Na contramão da crise, clubes de livros revolucionam o mercado

‘A crise do mercado editorial é de um determinado modelo de varejo, não dos livros’, diz Alexandre Fonseca, da Panaceia

A inadimplência da Cultura e da Saraiva parecem ser o sintoma mais gritante da epidemia que corrói o mercado editorial brasileiro e para qual não existe vacina. No meio desse cenário, uma nova forma de consumir literatura segue inoculada. São as caixas de assinatura, que vão de 50 a 100 reais por mês e entregam na sua casa edições de luxo de livros surpresa.

O que parece ir na contramão da teoria do consumo, já que o consumidor não escolhe o produto final, tem florescido com base em novas formas de se ver o ato de compra e venda do livro. “Do meu ponto de vista, a crise do mercado editorial é de um determinado modelo de varejo, não dos livros. O público leitor ainda é pequeno perante o tamanho da nossa população”, fala Alexandre Fonseca da Panaceia Clube de Livros.

“O caminho de todos os mercados tem sido construir relações verdadeiras”, defende Danielle Machado, editora executiva do Intrínsecos, clube de assinatura da Editora Intrínseca. Ela tem razão. Com os canais no YouTube engajando muito mais que a crítica em um cenário onde a experiência vale muito mais que a autoridade, o sistema literário, sempre pautado em afluência, parece ter dificuldade em se adaptar. “No nosso [clube de assinatura], a mais importante relação é a do leitor com o livro. Quanto mais perto o livro estiver do leitor, mais forte será nosso mercado”, ela completa.

No lado dos negócios, Gustavo Lembert, sócio e fundador da TAG Livros, explica: “Vemos muito mais como uma crise de canal do que como uma crise de mercado ou de leitores. Há muita gente querendo consumir literatura, mas a forma como o mercado editorial vinha praticando está sendo questionada. Há gigantes norte-americanas, como a Sears e a Macy’s, que estão na mesma situação.

O que aconteceu foi que muitas editoras tinham no seu modelo de negócio uma dependência gigantesca dos dois principais players [Cultura e Saraiva], há casos que superavam 50% da receita. E quando essas varejistas tiveram dificuldades para se adaptar às mudanças tecnológicas, com o aumento expressivo de vendas on-line, sustentar o custo fixo de ter uma megastore se provou quase uma história de ficção.”

Com um sistema refém de uma lógica tradicional, a renovação parece chegar ainda mais tarde que em outros mercados e a cegueira não impacta negativamente apenas a receita final – mas também o consumidor. “A melhor maneira é trabalhar cada vez mais com editoras independentes.

Trazendo pro nosso público livros que não sejam óbvios e de editoras que não encontramos em todas as livrarias. A produção editorial no Brasil é muito rica e diversa, mas dada a crise dos canais de vendas, as editoras têm muita dificuldade em chegar ao público final. Acredito que um dos papéis dos Clubes de Assinatura de Livros é também ajudar nisto,” defende Fonseca.

“Não havia livrarias no meu bairro, meus pais não acompanhavam os lançamentos, não atentavam para as colunas literárias nos jornais e não havia internet. Mas nossas estantes eram repletas de anos e anos de assinatura do Círculo do Livro”, explica Machado, reiterando a importância dessa conversa com as comunidades de leitores fora do eixo das capitais. “Falamos muito aqui que nossa maior meta com o Intrínsecos é, no futuro, olhar para trás e ver que as lombadas coloridas do clube se tornaram parte da casa dos brasileiros, como eram aquelas da minha casa.”

Seja através das escolhas de uma grande casa editorial ou de curadores selecionados,Panaceia, Intrínsecos e TAG querem brigar de frente com o sistema e o elitismo literário no país. “O próprio fato de o título ter atingido sucesso comercial, às vezes, é visto como algo negativo, o que é um absurdo quando se pensa em outros mercados em que isso obviamente não acontece. Philip Roth vende pouco? E Ian McEwan?”, questiona Lembert, explicando que a TAG também um clube focado em best-sellers inéditos no Brasil. “Encaixotar a literatura sob rótulos é subestimar quem vai ler.

É um desafio enorme levar essa pluralidade para um clube de assinaturas? Sim. Mas o retorno só corrobora nossas expectativas: nos primeiros seis meses de clube, os intrínsecos já leram do thriller policial ao romance e ao terror, de autores consagrados, como Liane Moriarty e Markus Zusak, e de nomes recentes, como C J Tudor, e o que mais ouvimos dos leitores é que eles talvez jamais tivessem escolhido esses livros que tanto amaram ler”, completa Machado.

Além do ato de ler em si, os clubes criam comunidades engajadas à sua volta: em 2018, foram organizados mais de 600 encontros de assinantes da TAG pelo Brasil inteiro e a Casa TAG na Flip de 2019 foi uma das mais lotadas. O impacto que os clubes têm hoje é muito maior que poderia ser previsto no passado recente.

“Eu acredito que haverá muitas iniciativas voltadas para aproximar o leitor de quem produz o conteúdo, além do crescimento do que já existe, como as plataformas de autopublicação, os aplicativos mobile, as redes sociais de leitores… E eu acredito que esse achatamento entre autores-editoras-leitores provocará uma mudança no que está sendo publicado”, prevê Lembert sobre o futuro.

Independente das minúcias dos modelos, Intrínsecos, Panaceia e TAG compartilham uma grande verdade: o mundo já mudou e são os laços, a comunidade, a relação próxima com os leitores que é e deve ser o verdadeiro norte do negócio.

Fonte: Carta Capital


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